sábado, 9 de março de 2013

8 de Março

O CEL não pode deixar de se pronunciar acerca do dia Internacional da Mulher.
Sabemos que nosso curso é, majoritariamente, formado por mulheres, que a profissão de professor é socialmente desvalorizada e, segundo a página no Facebook intitulada de "UFRGS da Depressão", as mulheres do curso de Letras são as responsáveis pela "má qualidade do ensino de Língua Portuguesa no Brasil". Certamente, todas as mulheres do curso já ouviram piadinhas acerca de "casamento bem-sucedido" com algum engenheiro. É preciso ser machista para fazer humor? Quais as formas em que a opressão se manifesta hoje e dia? Deixamos aqui o questionamento.
Aproveitamos o espaço para fazer nossa homenagem, mesmo que simbólica e pequena, não apenas às mulheres do curso, mas a todas as trabalhadoras e lutadoras contra o dia-a-dia machista o qual todas temos de enfrentar.


Sobre a inconstância da estrada 

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.”BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo, vol.2

 Olho pela janela do ônibus parado. Manhã de feriado, rodoviária cheia demais. Meu coração ansioso por pegar a já conhecida estrada bate devagar com a idéia de dormir nas horas de viagem. O antes e o depois da viagem são sempre momentos de pensar em como as coisas mudam. Ou não mudam.Uma visão me pega desprevenida, tira meu coração do sossego e faz minha mente viajar: os olhos azuis vidrados de uma boneca estilo bebê que se encontra nos braços de uma garotinha de, no máximo, sete anos. A garotinha, com seus pequenos braços faz do colo um conforto, um colo materno que ela ainda recebe e dá para uma boneca brincando de ser mãe.
Os pensamentos correm, escorrem rápidos como a paisagem que começa a passar na janela quando o ônibus arranca com um solavanco suave. O desassossego me persegue e não me deixa descansar. O inquietante é algo que sempre busquei e sempre que ele chegou, a necessidade de fazer algo com sua presença não coube em mim... explodi. Na minha mente, quantas batalhas campais travei contra o machismo e o patriarcado que reforçam o conservadorismo de uma sociedade em que a mulher é secundária. Quantos repúdios manifestei a atitudes de opressão dos direitos das mulheres, ao direito de ser a mulher que a mulher quiser ser. Como, no silêncio a que as mulheres sempre foram submetidas, minha raiva tomava corpo e se fazia em mim a vontade da revolução.A visão da menina segurando a boneca é tão familiar que a viagem até a minha infância é mais rápida. Penso nas bonecas guardadas na minha antiga casa. Lembro que é dia das crianças. Penso nos programas de televisão que se aproveitam da data para reforçar os lugares em que pretendem colocar, como brinquedos de encaixar, pessoas. A garotinha-mãe, com a boneca de vestido rosa, tem um mini-fogão, também cor-de-rosa e sonha com os príncipes encantados das histórias destinadas a ela. (Porque ele irá chegar. ELE irá chegar. Lindo, loiro e pronto para trabalhar por ela enquanto, no mundo macro, ela pode cuidar da casa e dos filhos). Enquanto isso, o irmãozinho brinca no quintal, joga bola e suja a roupa de barro para controlar o carrinho de brinquedo que dirige com as próprias mãos.A voz de meu pai grita contra o eu que contesta: “NÃO SE PODE SER TÃO RADICAL, MARINA!” e corta, por alguns instantes a estrada (perigosa para uma mulher) que atravesso rumo aos meus próprios pensamentos, ao meu pensamento próprio. Ah! Como tu deves sentir falta do tempo em que pensava o que tu querias. Ah! Como te desgosta as camisetas e bandeiras que hoje carrego. Ah! Quanta decepção, quanto desgosto... sua filhinha, hoje tão distante da mulher que querias que fosse...Com orgulho renovado por não ter me tornado a mulher que esperavam que eu fosse, que não pretende chegar nem perto de ser as projeções reproduzidas por valores tão antigos quanto esse papel que acham que eu devo representar na sociedade, enxergo as nuvens que encobrem a visão e deixam a estrada mais perigosa no subir da serra. Mas a boneca com a qual eu brincava não tem mais espaço no armário e não pretendo que ela ganhe vida um dia. E essa estrada pode dar em um abismo. Não importa quantas vezes eu a percorra, sempre me sentirei insegura.O passageiro do banco da frente ajeita o banco e deixa meu espaço mais limitado. Com esse movimento repentino volto à janela por onde correm as árvores e me dou conta que já estou quase chegando na casa em que tantas coisas ouvi e engoli. Já posso sentir o cheiro de comida e sei que minha mãe deve ter passado a manhã preparando-a. Não porque alguém achou que ela deveria, (porque, felizmente, no lar em que nasci, a figura masculina já não é soberana)  mas porque ela queria comer algo diferente do feijão-e-arroz de todos os dias. Percebo que cresci foi na viagem. Ida e volta o tempo todo formaram o ser e o saber do des-vínculo que criei com a infância de projeções. Ainda há muito o que andar. Ainda há muito o que mudar. A estrada não acaba quando a gente chega. Marina Marostica FinattoEstudante de Licenciatura em Letras Português/ Inglês

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Um comentário:

  1. Eias aqui o link pro post citado no texto acima. https://www.facebook.com/CoisasQueAUfrgsFala/posts/136775406491205
    Pra quem quiser ter gastura, sugiro ler os outros também! em especial os de Pedagogia e de Secretariado, muito trash!

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